Um roteirista

Tentativas desesperadas de se tornar um escritor de verdade

Nômade

Meu primeiro – e único – professor de roteiro dizia que devemos escrever sobre o que conhecemos. Nada de falar sobre a vida no campo se você nasceu e viveu em Copacabana. Esqueça o bucolismo rural quando o que embalou seus sonhos de berço foram as guinchos agudos dos freios de amianto dos ônibus da esquina da Santa Clara com a Nossa Senhora.

Eu nasci e vivi boa parte da minha vida entre a Siqueira Campos e o Corte do Cantagalo e não quero falar sobre o campo, embora talvez nem queira falar sobre o meu bairro. Afinal, morei em muitos lugares. RJ, Minas, SP. E dentro desses estados, Rio, Teresópolis, Juiz de Fora, Campinas, São Paulo. E mesmo nelas, não parei quieto: Ilha, Lagoa, Alto, Cambuí, Barão Geraldo, Moema, Pinheiros, Higienópolis.

Pois, durante uma de minhas dezenas de mudanças, já de volta à cidade-purgatório-da-beleza-e-do-caos, um dos sujeitos que carregavam os móveis para dentro do caminhão da transportadora me pergunta se eu já não tinha morado em São Paulo uns anos atrás. Intrigado, respondi que sim.

E ele explicou a coincidência: “fiz sua mudança de lá pra cá”. Naquele momento, me ajudando a mudar de casa pela terceira vez, completou: “você é um cigano, cara”. Não fiquei surpreso, pois, certa vez, num terreiro, uma pomba-gira já havia me dito o mesmo enquanto apagava o cigarro que fumava na palma de sua mão.

Mas falar sobre lugares, ao contrário do que se possa pensar em um primeiro momento, não é o mais indicado pra mim. Melhor seria falar da falta que eles me fazem. Ou, para ser realmente sincero, da falta deles em mim.

Anúncios

Falta de inspiração (inclusive neste título)

Nos últimos dias tenho novamente escrito muito pouco. Os projetos que me tomaram tanto tempo há um mês e meio entraram num exasperante compasso de espera.

Talvez por isso minha motivação não esteja tão alta hoje. E segundas-feiras não ajudam, convenhamos. Ainda mais depois de um feriado.

Então pego o iPad e me largo aqui nesse sofá, já que a vontade de me sentar na frente do desktop praticamente inexiste. Abro o iA Writer (definitivamente o melhor editor de textos sem formatação) e vejo o cursor azul ficar piscando por mais de oito minutos numa tela branca até que alguma ideia, por pior que seja, surja.

E o que surgiu foi isso. Vou falar de que? Dessa vez, o ato de escrever vai render um post? Tenho que fazer um esforço hercúleo para me lembrar qual a serventia deste blog: escrever para escrever mais.

Algum dia, já me peguei pensando, talvez eu possa pegar tudo isso aqui e transformá-lo em outra coisa. Se isso acontecer, certamente este post não será utilizado, já que não versa sobre nada, nenhum tema, nenhuma questão de fato.

E se esse tipo de situação se mostrar cada vez mais frequente? E se eu não tiver muito mais a dizer sobre o ato em si de escrever? Eu deveria começar a usar algum artifício, algum mecanismo pra disparar um assunto? Isso iria contra as regras sobre as quais este blog foi criado?

Meu primeiro pensamento é de facilitar essa decisão pra mim: ora, fui eu quem criou isso, por que me preocupar em seguir uma linha? Mas logo me policio, pois, dependendo da decisão tomada, poderia ser a escolha pelo caminho mais fácil, um desvio para não enfrentar o problema, um subterfúgio.

Preferível falar sobre esse branco, essa – guardada as devidas proporções – síndrome de Bartleby, do que me aventurar a escrever sobre outras coisas. Coisas que, provavelmente, desconheço tanto quanto ser um escritor de verdade.

Quanto pior, melhor…

Essa semana cada post foi um parto. Basta uma passada de olhos nos textos publicados nos últimos dias pra ver que a qualidade deles caiu ainda mais.

O cargo que agora tenho ocupado no meu emprego não tem me deixado muito tempo pra pensar em nada que não seja relacionado às minhas novas atribuições. Não é de todo ruim. Isso me dá um novo fôlego e voltei a acordar motivado para mais um dia de labuta.

Por outro lado, redistribui uma energia que estava toda voltada pros roteiros. A bem da verdade, esse blog surgiu como uma “tentativa desesperada” de tentar canalizar essa energia e transformá-la em algo ligeiramente mais produtivo. E agora, minha nova fase profissional vem pra disputar espaço com esse meu casamento em crise com a dramaturgia.

Isso não chega a me preocupar, pois penso que essa potência renovada pode acabar se refletindo nas demais áreas. Mas sei também que, se eu não me policiar, não é difícil voltar às atenções para minhas tarefas de funcionário em detrimento da autoria de roteiros, que pouco tem me requisitado. Nada mais natural: o sangue corre pra onde o organismo mais precisa dele.

Quando comecei a escrever e os roteiros surgiram com alguma força (escrevi mais de vinte episódios pra cinco temporadas de séries de TV), não por acaso, foi um momento em que meu ânimo com o trabalho andava bem caído. Eu peguei toda aquela frustração com meu emprego (e empregador), a transformei numa história e embolsei um prêmio de algumas dezenas de milhares de reais.

Portanto, e de certa forma contrapondo o que falei no terceiro parágrafo, não estar totalmente bem consigo mesmo parece ser um bom estímulo para escrever melhor. Por isso, por causa das horas mais felizes que tenho tido no horário comercial, venho presenteando meu(s) leitor(es) com textos de qualidade ainda mais sofrível do que de costume.

Por sorte, temos um feriado amanhã, poupando-os de uma sexta-feira com mais um post ruim. Na segunda eu volto.

Ácido desoxirribonucleico

Releio o post anterior e descubro duas características fundamentais minhas e que me fizeram optar pelo caminho que percorri até aqui.

A primeira é minha tendência em tentar esquematizar tudo o que de alguma forma parece esquematizável. Eventos que se repetem logo se transformam em equações, processos de trabalho facilmente viram fluxogramas e uma história acaba se organizando melhor numa escaleta. É da minha natureza buscar uma ordem e, sem dúvida, foi essa minha forma de funcionar – aliada a uma certa facilidade com números – que me levou a marcar “Física” como primeira opção no vestibular (as outras duas foram “Matemática” e “Matemática Aplicada e Computacional”).

Nerd, eu sei. O que me leva a segunda característica a qual eu me referia: a introspecção.

Quando o cinema retrata físicos, ele geralmente os coloca como pessoas inteligentes, pouco adequadas às convenções e bastante deslocadas quando precisam se relacionar. Clichê, ok. Mas clichês têm um porquê de existirem, por mais que, na maioria dos casos, não devam ser usadas na dramaturgia.

Outro clichê são os popularmente conhecidos como “hackers”, mas que, na versão menos glamurosa, são os “caras da informática”. Os sujeitos de óculos (sim, eu sou míope) que digitam comandos nebulosos para extrair o máximo do computador. Alguma dúvida que podemos ter uma certa dificuldade em nos socializar?

Pois, finalmente, pra completar meu raciocínio, surgem os roteiristas. Nenhum filme acontece sem um roteiro (embora houvesse tempo em que bastava uma ideia na cabeça e uma câmera na mão para se fazer um filme. Um mau filme, diga-se de passagem). Não seria pretensioso dizer que as indústrias cinematográfica e televisiva baseiam-se nas tais folhas cheias de ações e diálogos escritas em Courier New. Mas, ainda assim, os roteiristas, salvo raras exceções, continuam avesso aos holofotes e tapetes vermelhos.

Afins

Físico teórico, desenvolvedor de software, roteirista. Há algo de comum entre as três profissões, e não é apenas o autor deste post.

Todas elas envolvem um trabalho bastante solitário onde o profissional tem diante de si um desafio cujo campo de batalha geralmente se limita a uma mesa, e as armas não passam de um editor de texto e uma tela (nos anos 90, boa parte das equações era resolvida com papel e lápis: raras vezes recorri ao Mathematica que rodava no servidor Solaris da universidade). E, claro, uma linguagem, seja ela a notação de Dirac, Assembly ou o português.

São também bastante semelhantes no formato. A partir de uma ideia, com a linguagem, cria-se um modelo que será posto à prova. Na Física, se a teoria for observada na prática, ou seja, se for constatado que ela corresponde ao mundo real (o que quer que isso signifique), ela é um bom modelo. Na Computação, é preciso rodar o código-fonte e ver se ele executa adequadamente as tarefas que dele se espera. E um roteiro transforma-se em um filme. Talvez nesse último caso, haja mais chances de insucesso, pela quantidade de fatores envolvidos e toda a subjetividade intrínseca ao processo.

Nesse sentido, optar por escrever roteiros talvez seja um pequeno desvio de rota em minha trajetória profissional. Para ser totalmente coerente, eu deveria ter tomado uma decisão mais corajosa e ser (ou tentar ser) um escritor ao invés de roteirista.

Escreve-se por vaidade?

A pergunta que alimenta este post surgiu dia desses quando, ao entrar no sistema do WordPress, fui informado que um usuário estava me seguindo, o que foi uma surpresa, já que, pra mim, apenas três pessoas sabiam da existência desse blog.

Saber que existe alguém do outro lado do monitor lendo essas linhas dá outro incentivo à manutenção desse espaço, tornando-o não apenas uma prestação de contas pra mim mesmo como também um lugar que está sobre o olhar crítico de outra pessoa que não eu.

Me questiono se alguém faz algo sem pensar em ser reconhecido, ser admirado. Mas querer ser reconhecido é ser vaidoso? Querer ser admirado é vaidade?

Entrei no Google atrás do significado da palavra. A palavra vaidade vem do latim vanitate, que significa vacuidade, que é próprio do vácuo, vazio.

Escrever tem sim uma ponta de vaidade, mas tenho certeza que isso se aplica a todas as outras atividades. Um problema de física corretamente solucionado, um código-fonte bem desenvolvido, um roteiro sem barrigas, o que todos nós queremos é fazer nosso trabalho bem feito e sermos reconhecidos por isso. Não vejo como que isso possa ser vazio.

É no cerne deste reconhecimento que reside a expectativa da troca, a reação às nossas ações. O cão que faz festa quando a porta se abre está te mostrando quão bom dono você é, aquela promoção tão aguardada indicando o lucro que você gera à empresa, o gozo da namorada te dando a dica de como vai a sua performance. Vaidade ou troca?

No momento em que se escreve, a vaidade continua lá, quase como pano de fundo, como o som de uma geladeira velha ou o zunido das luzes frias. Em primeiro plano está a necessidade de colocar pra fora o que nos emociona, o que nos afeta, o que nos angustia, o que nós aprisionamos e dos quais nos tornamos prisioneiros. E quando o ponto final é posto, aguarda-se não aplausos (embora não seja ruim ouvi-los), mas o reconhecimento do outro de que conseguimos, por mais ínfimo que este momento tenha sido, capturar a quase intangível natureza humana.

PS – Na minha pesquisa sobre a definição do substantivo, me dei conta que sempre quis ter mas nunca tive um dicionário etimológico, para saber mais sobre a origem e formação das palavras. Aí acabei me dando de presente o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha. Deve chegar no dia 20.

Mudanças

Esta semana, no trabalho, me mudei definitivamente para outra sala, onde estou exercendo um cargo diferente. Mês que vem haverá outra mudança, muito maior do que esta.

Mudanças são bem-vindas, embora – ou por isso mesmo – tragam consigo algumas incertezas. Como vou me adaptar aos novos convívios e atribuições? Meus horários e flexibilidade serão os mesmos? Vou dar conta do recado? Todas essas questões, na verdade, se resumem em uma só: serei mais feliz?

Aos 42 anos, já sei do que preciso para me sentir bem, mas algumas vezes me deparo não sabendo como obtê-lo. O que me faz lembrar de uma comédia romântica despretensiosa, cujo nome não gravei, que assisti meio por alto há uns quinze dias.

A certa altura, a protagonista chega no consultório de um psicólogo. Parece ser sua primeira sessão. Ela se senta, fala meia dúzia de palavras e se levanta, dizendo que não deveria estar ali.

O terapeuta a leva até a porta e se despedem. Ela sai pelo corredor mas então se volta e manda uma pergunta: “Se você pudesse dar um único conselho para alguém ser feliz, qual seria?”. O psicólogo sorri, diz não ser algo fácil de se responder mas, depois de refletir por alguns instantes, arrisca: “descubra o que você quer e aprenda a pedir”.

Academia

Tantos livros pra ler em cima da minha mesinha de cabeceira, mas um artigo que preciso estudar para a aula de amanhã está atravancando o meu caminho desde o início dessa semana. Não consigo focar nele, me demoro vários minutos em cada parágrafo e toda hora preciso voltar a relê-lo.

O texto é uma reflexão sobre algumas práticas não muito adequadas do profissional de saúde. Não é um assunto difícil, tampouco importante, mas a forma como é escrito torna a leitura extremamente penosa. Repleto de um jargão – como diria? – político, uso de termos vagos, palavras não muito eficazes, oblíquo.

Por que escrever assim? Por que não ir direto ao ponto? Um dos últimos parágrafos que li tinha sete linhas e nenhum ponto. Apostos dentro de apostos, uma vírgula levando a outra e a outra e a outra. Um suplício. E pelo pouco que entendi, ele inclusive cita um livro de própria autoria, ou seja, como se não bastassem as onze páginas que me obrigaram a ler, o cidadão ainda publicou outras tantas.

Ainda falta metade do artigo e temo não conseguir terminá-lo dentro de um tempo razoável para escrever algumas considerações sobre ele. Não sobre seu estilo, claro. Estas, eu acabei de fazê-lo (e vou levá-las na manga).

O espelho

Em poucos lugares eu tenho tanta noção do que o tempo me arrancou quanto na cadeira da minha cabeleireira. A luz chapada no meu rosto encovado, as olheiras depois de um dia de trabalho, as manchas da velhice na testa cada vez mais alta.

Luana pergunta se quero lavar a cabeça. Dou de ombros e me levanto. A água quente me consola nessa tarde de inverno e falamos amenidades enquanto ela massageia meus cabelos.

A toalha felpuda branca.

E então estou de volta à cadeira em frente ao espelho que mostra a idade que tenho. Os fios molhados juntos ao crânio, o couro cabeludo branco e aparente. Nunca fui tão velho, verdade absoluta a cada novo instante.

A máquina de cortar cabelo vai começar o seu trabalho. Sobre seu zunido, a mulher me oferece um café. Meneio a cabeça e ela entende corretamente como um sim.

O vapor que sai do copo de isopor.

Luana espera eu terminar de tomar o café que eu adocei com um sachet de açúcar. Retorno com o copo agora vazio pra bancada, ao lado da Caras com um famoso na capa que me é desconhecido.

Dessa vez, a cabeleireira realiza quase todo o seu ofício sem o uso da tesoura. Ela não assistiu ao filme que comentei, eu não fui ao festival que ela citou. Falamos sempre somente sobre cinema, não sei bem por que. Talvez nossa amiga em comum tenha mentido e dito a ela que eu era um roteirista, nos fadando a conversar sobre este único assunto. Talvez da próxima vez eu deva dizer pra Luana que o mais recente episódio de sitcom que escrevi foi ao ar em janeiro. Ou devo dizer agora, sem esperar que ela termine de cortar meu cabelo, que meu último trabalho foi um vídeo institucional pra uma mineradora? Nada mais longe do glamour de Hollywood, eihn Luana?

O salão vazio agora parece ainda mais vazio, embora – ou porque – os pelos que cobriam minha cabeça estejam espalhados pelo chão.

O sofá com as cores de Frida Kahlo.

Pago o que lhe é por direito: seu esforço inútil de tentar amenizar as horas, dias, anos que escorrem de mim e que devem ainda estar estampados naquele seu maldito espelho.

Shopping

O despertador toca. É um rádio-relógio Sony sintonizado na MPB FM e que, muitas vezes, me faz ficar com alguma canção na cabeça boa parte do restante do dia.

Percebi que, quanto pior a música, mais rápido eu me levanto. Ou mais rápido aperto o botão snooze, o que me dá exatos dez minutos pra tentar demover meu corpo da ideia de continuar na cama Ortobom morna debaixo dos lençois MMartan amarrotados.

Em algum momento, meu senso profissional, minha maturidade tardia ou algum outro método convincente de pressão me fará colocar os pés pra fora da cama. Pé ante pé, lá estarei eu, me dirigindo para o banheiro de piso frio. Abrirei a torneira que irá acender o aquecedor à gás Bosch e eu entrarei no box Blindex, me desviando da água ainda fria que cai do chuveiro sem pressão do décimo andar.

Lavo o cabelo com um anti-caspas da La Roche Posay, me ensaboo com Dove, uso o condicionador da Natura, me enxaguo, me seco com uma toalha Buddemeyer. Escovo os dentes com Oral B cheia de pasta Aquafresh, passo o fio dental Colgate, uso um Listerine da vida. Passo um desodorante sem perfume Banho a Banho, depois provavelmente optarei por um Jazz da Yves Saint Laurent.

Me vestirei com uma cueca boxer da Hering, uma calça jeans da Aviator, uma camiseta da Osklen, uma meia Adidas, um tênis da Armadillo.

Preparo o café Pilão fechado à vácuo, enquanto coloco duas fatias de pão Wickbold na torradeira Black&Decker. Esquento o leite Parmalat no microondas Consul. Passo manteiga Aviação na torrada já pronta e adiciono mais uma colher de açúcar demerara União na xícara da Imaginarium que minha sobrinha me deu de aniversário antes de me sentar no meu sofá da Tok&Stok e assistir ao Bom Dia Brasil que está passando na TV Samsung.

Pego minha mochila Nike, abro e fecho a porta com minha Papaiz e chamo o elevador Thyssenkrupp. Sei que vou caminhar até o ponto de ônibus BRS3 e aguardar o 483 da viação CityRio que irá me levar pra longe dali. Durante o trajeto, irei ler o último McEwan lançado pela Companhia das Letras, pois, dizem, pra escrever bem, é preciso ler muito.

E eu tenho que ser um escritor de sucesso e deixar também minha marca.