Toy Story (ou Posts de Uma Mente Sem Lembranças)

por umroteirista

Nesta segunda-feira, retorno aos dias de hoje. Largo, em algum lugar do hipocampo, minhas memórias afetivas. Me despeço da cozinha com o chão de lajotas vermelhas, o corredor da área com seu parapeito de mármore gasto, o vão interno do prédio, a pequena tartaruga comprada do camelô na avenida principal de Copacabana, as manhãs de domingo quando ainda todos dormem, os brinquedos de madeira e corda, aquaplay.

Naquele tempo, distante como uma outra vida, as expectativas já deveriam existir, mas não recaíam sobre mim. Talvez por isso eu me recorde do coelho de borracha no berço mas nunca me lembre do que almocei ontem. Para tentar me livrar dessa pressão, muito maior que a atmosférica, que aperta garganta e peito, que apequena ideias e asas, removo as lembranças.

O problema é que, como numa lousa mágica, parece não haver como apagar um detalhe aqui, outro acolá: ao sacudi-la, remove-se todo o desenho. Portanto, no que se refere à construção intelectual, não devo diferir muito de um peixe de aquário e seus três minutos de capacidade de retenção do que se passou.

O que, convenhamos, não é uma característica muito adequada para alguém que quer escrever como gente grande.

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