Um roteirista

Tentativas desesperadas de se tornar um escritor de verdade

Via de regra

Pelo que posso contabilizar, seis pessoas já leram este blog e talvez três tenham entrado aqui com alguma regularidade. Até, obviamente, perceberem que regularidade não é uma qualidade do indigesto autor.

Não é fácil, pra mim, escrever diariamente sobre o escrever. Não me formei em letras, não sei dos estilos literários, não sou um erudito, ora bolas. Como escrevi no post abaixo, não li muitos clássicos, optei por Stephen King ao invés de James Joyce (dele só tive coragem de ler Dublinenses, excelente).

Essa falta de rigor também se faz presente aqui e, portanto, acabo de quebrar a primeira regra. As demais permanecem até que eu faça uso da única regra que sigo: a de não seguir regra alguma.

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O iletrado

Viajei na terça-feira para o interior de São Paulo a trabalho. Sem levar um notebook ou um tablet, e só chegando de volta ontem no final da noite, não consegui escrever os posts desses dois dias. Cheguei a pensar em assuntos para abordar, mas nada me pareceu apropriado, nenhuma ideia me empolgou a ponto de anotá-la.

Como já repeti inúmeras vezes aqui, este blog surgiu com o objetivo de me fazer escrever ao refletir sobre o processo da escrita. Mas o fato é que eu pouco sei sobre isso. Não tenho praticamente nenhum conhecimento sobre técnicas literárias, não me formei em Letras na PUC, não me graduei em Cinema na UFF. Li bastante, mas boa parte – a maior parte – dos livros que li, não estão nas listas dos livros a serem lidos antes de morrer, dos clássicos da literatura universal.

Perdi um tempo enorme acompanhando todos (sim, todos) os mistérios com que Sherlock Holmes se deparava, devorando dezenas e mais dezenas de histórias de terror do Stephen King, seguindo as aventuras do Clube dos Cinco, varrendo todas as coleções Para Gostar de Ler e Vagalume, viajando no tempo com Isaac Asimov.

É verdade que tive sorte de topar com Dom Quixote, Conde de Monte Cristo, Os Três Mosqueteiros, Moby Dick, O Corcunda de Notre Dame. Li a obra de Julio Verne e Garcia Marquez, pelo menos. Arrisquei Nietzsche, provei Foucault. Descobri há pouco Durkheim, Freud. Antes deles, McEwan, Phillip Roth, Piglia, Bolaño, Puig. Mas também muito Sidney Sheldon, alguns Paulo Coelho.

Posso continuar citando, mas vai ser sempre pouco (pouco do bom). E o pouco que leio, leio sem crítica, indiscriminadamente. Por isso, assim escrevo. Por isso, não escrevo. Ou, quando escrevo, são esses textos. Essas merdas de palavras ajuntadas, entulhadas nesse canto onde ninguém passa os olhos, ninguém lê.

Toy Story (ou Posts de Uma Mente Sem Lembranças)

Nesta segunda-feira, retorno aos dias de hoje. Largo, em algum lugar do hipocampo, minhas memórias afetivas. Me despeço da cozinha com o chão de lajotas vermelhas, o corredor da área com seu parapeito de mármore gasto, o vão interno do prédio, a pequena tartaruga comprada do camelô na avenida principal de Copacabana, as manhãs de domingo quando ainda todos dormem, os brinquedos de madeira e corda, aquaplay.

Naquele tempo, distante como uma outra vida, as expectativas já deveriam existir, mas não recaíam sobre mim. Talvez por isso eu me recorde do coelho de borracha no berço mas nunca me lembre do que almocei ontem. Para tentar me livrar dessa pressão, muito maior que a atmosférica, que aperta garganta e peito, que apequena ideias e asas, removo as lembranças.

O problema é que, como numa lousa mágica, parece não haver como apagar um detalhe aqui, outro acolá: ao sacudi-la, remove-se todo o desenho. Portanto, no que se refere à construção intelectual, não devo diferir muito de um peixe de aquário e seus três minutos de capacidade de retenção do que se passou.

O que, convenhamos, não é uma característica muito adequada para alguém que quer escrever como gente grande.

Máquina de fazer histórias

E cá estou novamente falando do passado. Agora tenho 13 anos, 14 no máximo. Ganhei há pouco meu primeiro computador, um TK-85, onde começo a desenvolver meus programas. Alguns meses depois, publicarei um aplicativo em uma revista especializada. Será, se não me engano, a primeira vez que ganharei algum dinheiro por meu próprio esforço, um cheque enviado pela editora e que irá chegar pelo correio. Não me lembro qual o valor. Nem mesmo a moeda. Talvez cruzeiro, embora logo em seguida será lançado o Plano Cruzado. Me lembro dos preços das revistinhas da Marvel congelados durante um, dois meses. No terceiro mês, eu quase me sentia cometendo algum ato ilegal – embora eu não soubesse exatamente por que –  ao ir ao jornaleiro e comprá-las por um valor tão baixo.

Ao voltar pra casa, eu lia os gibis, assistia aos noticiários mostrando os fiscais do Sarney fechando supermercados que remarcavam seus preços e digitava no teclado-bolha alguns códigos-fonte. Um deles era um sisteminha, onde de um lado eu inseria nomes, ações, adjetivos, substantivos, e do outro saíam frases que misturavam tudo isso, várias orações que, mal e porcamente, eram pequenas narrativas.

A aleatoriedade do resultado, mais que sua construção, é que me fascinava. Frases, randomicamente geradas, que eu não poderia prever ou controlar, mas pelas quais, de alguma forma, eu havia sido responsável. Como gerar um filho, creio eu, que depois toma seu próprio rumo e te surpreende. Como – por que não? – uma história, que, durante o processo criativo, vai tomando vulto, até o momento em que se percebe que ela tem mais a dizer a você do que você a ela.

Minhas tardes na rua Bolívar

Contagiado pela nostalgia do post anterior, avanço apenas alguns poucos anos, quando eu ainda era um moleque de uns sete, oito.

Nos fins de semana, eu ia pra casa da minha vó em Copacabana, bem perto da Lagoa, onde eu morava. Gostava de ir pra lá, e um dos motivos era uma máquina de escrever Olivetti Lettera que ela tinha.

Foi meu primeiro contato com a escrita. Não me lembro de escrever histórias que não fossem de mistério, de detetive, com um certo estilo noir. Só que eu tinha dificuldade em pensar na história como um todo. E, então, começava a escrever com uma ideia, mas sem saber exatamente onde iria acabar. Muitas vezes, não terminava, cansado pelos capítulos que se sucediam sem um arco dramático.

Vejo agora, escrevendo essas linhas, que me faltava uma reflexão sobre o que queria dizer, colocar no papel os pontos principais da trama antes de começar a datilografar. Se eu tivesse feito isso naquela época, poderia ter trilhado outro caminho. Tardiamente descubro que eu deveria ter feito uma escaleta, não apenas pras histórias que tentei contar, mas para a história que vivi.

Assinatura

Eu aprendi a ler bem cedo. Com três anos, andava pra lá e pra cá arrastando minha coleção de palavras cruzadas. Mas antes disso eu já tentava escrever. No canto superior direito dos desenhos que fazíamos no maternal, a professora anotava, em letra cursiva, os nomes de cada um dos artistas da turma. Quando percebi que ali devia estar o meu nome, decidi eu mesmo assinar minhas obras de arte.

Assim, depois que eu terminava de fazer meus rabiscos nas folhas de papel ofício, nos papéis pardos e até nas lixas, eu traçava com lápis de cera: uma letra mais gorda pra cima (“R”), mais adiante, uma bola e um traço (“d”) e, quase no fim, uma outra bola com a barriga pra baixo “g”. Podia não ser exatamente a grafia do meu nome, mas a professora deve ter gostado de ter um trabalho a menos pra identificar.

Foco

A foto aqui ao lado foi tirada durante a Flip deste ano. O último parágrafo, que fala sobre como a falta de foco impacta na sua produção não apenas literária, mas qualquer que seja sua atividade, é um excelente ponto para reflexão.

A escritora Jennifer Egan se referia ao tempo cada vez maior que passamos conectados e eu, algumas vezes, já toquei nesse assunto aqui neste blog, propondo maneiras de driblar as distrações que a internet, os dispositivos móveis, enfim, essa profusão de estímulos que me desestimulam a escrever. Mas há outros, claro: a briga pelo celular que a mulher obriga que todos no ônibus escutem justamente quando estou pensando em um roteiro; os textos acadêmicos que um curso de pós-graduação exige que leiamos quando na verdade queremos ler o primeiro livro do Franzen; o trabalho que levamos pra casa porque não demos conta durante o expediente; os eventos sociais, e tudo o mais.

O Torreão, de Jennifer Egan

Parte da resenha publicada na Folha de SP de “O Torreão”, de Jennifer Egan.

Não que isso seja ruim, não é. Até mesmo o litígio telefônico da passageira do 484 pode ser divertido (pra mim, claro), ou útil para uma ideia de cena. E, quem me conhece, sabe que eu gosto de encontrar amigos numa festa. E cursos de pós-graduação podem aumentar o meu salário lá na frente. Só que, muitas vezes (na maioria delas) requer um esforço ainda maior para mantermos o foco. E isso é apenas a primeira camada e não é ainda sobre isso a que eu me refiro (veja: já perdi o fio da meada, entrei em devaneios em apenas três parágrafos). Falo sobre a propriedade de convergir pensamentos, atitudes, mundos e fundos em prol de algo.

Muitos dos que conseguem brilhar em suas áreas têm, como característica fundamental, a capacidade invejável de não se desviar. Eu arriscaria dizer que é preciso ser quase que um obsessivo para se alcançar um objetivo mais difícil. Infelizmente, eu não nasci com essa qualidade. A estranha qualidade de reduzir a visão periférica e praticamente ficar cego, só mirando um ponto à frente: o alvo.

Laura Alvim

Como se pode facilmente aferir, tornou-se um hábito não escrever o post no tempo regulamentar. Embora não haja atualização deste blog com a frequência que foi estipulada no momento de sua criação, a culpa permanece.

Mas cá estou eu, correndo novamente atrás do prejuízo e, sendo dia útil, sem poder usar de subterfúgios pra  fazer este texto valer por dois. Ou seja, hoje dois post terão que ser gerados. Este primeiro, de certa forma, explica o porquê de eu não ter escrito ontem.

No final da noite, eu e minha namorada fomos ao cinema no simpático Estação Sesc Laura Alvim. Ali, sentados esperando a sessão começar, ficamos imaginando como seria ter morado naquela casa, à beira da praia de Ipanema. Na verdade, uma espécie de pequena vila com um átrio formado por três construções que se comunica, por meio de uma viela, com a avenida Vieira Souto.

Em uma de suas salas de projeção assistimos ao filme Um Divã Para Dois. Na crítica do jornal, o Bonequinho do Globo está sentado, atento. De fato, é um bom longa-metragem, com um roteiro bem amarrado e as interpretações excelentes (sóbrias, no ponto certo) de Meryl Streep e Tommy Lee Jones. Ponto para o casting, que deve se ver cada dia mais com o desafio de encontrar um bom ator que saiba envelhecer. Ali, não caberia uma atriz que carregasse alguns mililitros de silicone a mais nem centímetros quadrados de epiderme a menos.

Laura Alvim provavelmente iria gostar de ver que filmes como esse estão em cartaz na casa onde foi criada e que doou para que se transformasse em um centro cultural. Aliás, foi em uma de suas salas que ensaiei, no ano passado, meus primeiros passos como diretor teatral.

Venga!

No início da noite de quinta-feira passada, eu e uma amiga roteirista levamos a uma produtora uma ideia de um novo programa de culinária. Diferente do formato tradicionalmente visto na TV, o projeto foi muito bem recebido pelas diretoras da empresa e a reunião se transformou num agradável bate-papo que durou mais de duas horas. Dali, saímos para comemorar o sucesso de nossa apresentação em um restaurante espanhol de Ipanema cujo nome dá título a este post.

O jantar, regado a honestos vinhos rosados espanhóis, avançou até os primeiros minutos de ontem, impossibilitando o post de quinta (sem trocadilhos, por gentileza) e sendo responsável direto (e etílico) pela ausência também na sexta-feira.

A princípio, havia pensado em escrever dois textos, pra compensar a dupla falta, mas como trabalhar no sábado conta como hora extra, este post fica valendo por dois.

Não posso comentar muito sobre o programa nesse momento, mas queria compartilhar com os não-leitores desse blog que a receptividade ao projeto nos deixou cheios de entusiasmo, fundamental para a trabalheira que teremos nos próximos dias: escrever o roteiro do episódio-piloto e as sinopses do restante da temporada.

O autor! O autor!

Embora este blog se intitule com o nada atraente “Um Roteirista” e mesmo seu criador não se levando muito a sério, é possível que esta não seja a forma mais correta de denominar o que eu faço.

Escrevi, é verdade, mais de vinte roteiros (filmados) de séries de TV. Mas escrevi também duas pequenas peças (encenadas) de teatro. Melhor seria dizer “autor”? E isso realmente importa?

Acho que sim. Percebi isso hoje, enquanto assistia a uma peça de um grupo com o qual devo colaborar dentro em breve.

A experiência vivida no teatro é única. E transformadora. Vi isso na expressão dos alunos da escola pública que formava a pequena plateia. Dos quase cinquenta jovens de 13 e 14 anos, apenas quatro já tinham assistido a uma peça teatral.

Depois do espetáculo desta manhã (um monólogo), almocei com a diretora que também adaptou o texto do original inglês. Conversamos um bocado e, ao final, fiquei de apresentar, nos próximos dias, uma ideia para uma nova peça.

Pelo menos por hoje, o título aí em cima poderia ser “Um Dramaturgo”, não poderia?